Contos do Coala- Noite mal dormida

 Era meia noite e em meu quarto eu ouvia os sons da cidade preencherem o vazio do meu apartamento. Não conseguia dormir, claro que não, haviam anos já em que não dormia uma noite inteira sem problemas. Pensei em pegar um cigarro, mas então me lembrei que não fumava. Suspirei. Tentei me ajeitar entre os lençóis velhos e gastos que usava mas não havia boa posição para dormir. Nunca havia posição boa o suficiente. Ou espaço o suficiente. Nada era suficientemente bom para mim. Não naqueles tempos. 
 Olhei para o teto, do andar de cima vinham sons. Não qualquer som, as orgias de Ferimidia, a gata do andar de cima, coço meu nariz, incomodado. Lembro de ter me levantado naquela noite e ido buscar um pouco de eucalipto para comer, estava na geladeira. Peguei um e mastiguei devagar, fiquei sentado no sofá por um bom tempo. Um tempo longo demais para quem está sem sono e curto demais para quem quer gastá-lo de modo fútil. 
 Os sons no andar de cima continuavam, era uma gritaria e gemidos sem tamanho, suspirei cansado, não adiantava reclamar com ela. Iria sorrir de modo sedutor e me convidar pra participar. Não nego que já fiquei tentado a ir, mas então via como os participantes saiam daquilo: além do sorriso exultante de quem tivera uma noite não dormida e bem aproveitada haviam arranhões e mordidas por todos os lados, um ou outro costumava sair mais ferido do que aquilo e iam para o hospital. Eu não me arriscaria a ir até lá. Talvez não arriscasse em noite nenhuma, mas naquela noite o vazio dentro de mim era pior do que de todas as outras noites. Suspirei e pensei naquilo, bastaria bater a porta e entrar. Seria simples passar uma noite em meio aos corpos lânguidos e flexíveis das amigas de Feramidia e esquecer meus problemas. O dia seguinte seria tão terrível quanto os outros, e não haveria emprego para ir, pois seria sábado e eu estava de férias. Férias forçadas, é claro, mas mesmo assim férias. 
 Mastigando meu eucalipto sentado no sofá velho que comprara anos atrás eu pensei em ligar a televisão e procurar algo para assistir, mas seria ainda pior. O vazio só tendia a aumentar quando eu assistia a algo. Peguei um copo de água e fiquei pensando nas alternativas para noite. Ainda não era tarde demais para sair e procurar um clube. Poderia fazer qualquer coisa naquela cidade, cujas luzes amareladas dos postes entravam por entre as cortinas rasgadas e sujas de meu apartamento. Poderia fazer qualquer coisa, sempre havia algo a ser feito, então por quê eu não fazia? Por quê não me levantava e ia atrás da vida em sua complexidade que nos fazia feliz apenas quando tentávamos não fracassar? O segundo eucalipto que tinha pego junto do copo d'água havia acabado, poucos ainda restavam na geladeira, deveria comprar mais no dia seguinte. Suspirei mais uma vez. Os sons pareciam diminuir no andar de cima, meu sono também. Pensei no que fazer. Pensei muito. Talvez não houvesse o quê fazer. Mas decidi procurar.
 Andei decidido até a porta, pus a mão na maçaneta já nem tão decidido, quando saí do apartamento já estava cheio das mesmas dúvidas de antes. Mas agora a porta estava fechada e eu deveria tentar, fora o quê prometera a mim mesmo, tentar. O corredor escuro e mau cuidado estendia-se a minha frente oferecendo as possibilidades da cidade e da vida. Decidi aceitá-las sem saber o porquê. Atravessei-o sem ânimo algum, rumo ao que considerava melhor. Não estava exultante, não estava ansioso, não estava feliz, estava apenas me movendo para não parar. 
 Fui para o andar de cima e bati na porta, mal sabia eu que aquilo seria apenas o começo de uma longa noite.

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