Como um aviso no início nunca é demais devo dizer então que a partir dessa postagem todos os textos serão postados ou segunda ou sexta, de modo que padronize-se essa loucura. Esse texto é o início de uma nova, e curta, série que estou preparando, baseada quase exclusivamente no livro "Noite na taverna" de Álvares de Azevedo, romantista brasileiro da segunda geração (os ultrarromânticos de Byron). Bon Voyage.
Música do dia:Essa música aqui que achei na internet
Era noite fria no bar esquecido, escondido entre prédios
maiores e reluzentes, novos e brilhantes com seus neons acesos noite e dia sem
parar. Por entre mesas vazias e copos derrubados encontravam-se quatro homens,
figuras solitárias na noite negra, no breu sem estrela dos amaldiçoados.
Ali quatro perdidos equilibravam-se bravamente sobre os
próprios corpos e copos. Ali residiam almas negras e manchadas pelo passado. Em
suas gargantas entupia o álcool e a necessidade de redenção. O vento soprou
maresia fétida e ríspida por entre as frestas do local. Parca luz cobria os
despertos, o serviço fora-se horas antes e deixara-os por conta própria, “vida”
era um termo irônico mascado por cães.
Julierg, um velho marujo, de rosto coberto por rugas e
cicatrizes – quais eram dos anos e quais eram das dificuldades? Nem ele saberia
dizer -, sobretudo azul rasgado e manchado com tripa de peixe, tosco no
acabamento e puído pelo sal marinho, era ele um antigo soldado daquele bar,
chamado “Desafio dos incapazes”. Deu-se por conta dentro daquela espelunca uma
vez mais e se arrependeu por estar lá, mas o vício tinha seus grilhões
poderosos no pescoço do navegador.
Auriban, mercador novo, tez pálida e macia dos acostumados à boa vida dentro de carroças luxuosas e forradas de veludo e seda. Era magro,
alto, e tinha finos anéis em todos os dedos, as botas de couro de crocodilo
estavam bem lustrosas e refletiam opacas a luz da lamparina na porta de
entrada. Perdido em meio a papéis rasgados por ódio ele repousava a testa na
mesa e parecia adormecido, em pesadelos mórbidos supressores de vontade.
Tracius, velho poeta da vanguarda das artes, caído, perdido
em vergonhas, em desilusões, loiro e bronzeado pelo sol, uma estátua a deus
Apolo inclinada sobre duas diferentes cadeiras, com copos e mais copos de
conhaque barato, espalhados ao redor, uma flor que abre suas pétalas para a
primavera. Sem consciência do que se passava, repousava com a cabeça no encosto
da cadeira e balbuciava rimas perdidas não ar abafado da estalagem apertada.
E havia também Lautimur, mas esse se mostrava consciente e
cheio de energia, como o fogo dos cabelos que tomavam também a barba em sua
descida encaracolada até os ombros. Vis olhos negros encaravam o ambiente com
ódio, mas o cavalheiro não sairia dali, estava preso à derrota por um antigo
escudeiro de cabelos negros e lábios cortados. Viera de uma grande companhia
apenas para apodrecer moribundo em um buraco de ratos recusados pelas moscas.
“Atentai, irmãos de copos vazios e cheios, pois é chegada a
alta-noite e como manda a tradição aqueles ainda presentes devem contar uma
história”, começou dizendo o ruivo, com o tom grave e forte dos trovadores,
“Hão de lembrar os motivos pelos quais vieram aqui, e ao final dessa penumbra
maldita, quando os raios leves e dourados do sol tocarem as velhas telhas de
barro deste bar, sairemos com os corações mais leves e os espíritos mais
livres!”
“Cala-te em nome das forças do Eterno! Já me bastam os
problemas oriundos do mundo, em meu recanto de meditação não serei obrigado a
ouvir lamúrias de párias e perdedores”, bradou Julierg, “Do que valem as fúteis
decisões tomadas entre copos, prostitutas e perdedores dentro de tavernas, se
tornarei a cair aqui tal qual bumerangue retorna a teu remetente com a certeza
de uma gota caindo e um fogo queimando?”
“Morreras tu, Julierg, enquanto eu cochilava? Estás
desiludido com tua velha amada, a sereia de pedra das casas flutuantes, pois
fizera de ti um amante e o abandonara por poucos vinténs. Andas com prostitutas
e te fodes sozinho.”, a voz de Auriban elevara-se e sumira com a intensidade de
um relâmpago solitário.
“Fostes abandonado pela família e vem dizer a mim como me
portar diante do abandono, és isto mesmo que me afirmar Auriban? Não terias
nessa cara lisa decência para falar?”, retrucou o marujo esbravejando por entre
a barba cinzenta.
“Já chega!”, decretou Lautimur, “Se agirão como crianças
serei eu o primeiro a falar. E guardem minhas palavras de que essa história
fará até mesmo o mais bravo entre vocês estremecer, mesmo diante de uma grande
chama”.
“Foi assim, em um verão antigo e amarelado nas terras
quentes dais quais eu vim...

Nenhum comentário:
Postar um comentário