Pequenas ansiedades, a volta das Insanidades do poderoso coala.

Vamos direto, porque ser reto é ser correto; de modo análogo o caminho mais curto não é o errado, apenas quando faço e desfaço desesperado. Não teremos ilustrações, essas presas em papel na forma de paradas canções, essas que quando bem pintadas trazem de si inclusive o calor de mil verões, o frio de mil invernos, o fogo de mil infernos, os amores das primaveras, as velhas ordens das novas eras, os tons monocórdios de melancólicos outonos, os reis outrora mortos em ferrenhos tronos... Não teremos música, apenas aquela que a vida nos oferece a cada dia de forma bonita e transforma agonia em pesar para amarrar com um laço doce os encantos da meia-noite e fazer um violão, fazer o violão tocar sem cessar durante horas fortuitas em que se encontram duas vezes por ano palhaços sem graça em um show de tragédia - o humor. 
Somos, e cessamos de ser ao morrer. Sem querer podemos não pensar em viver, mas pensar em ser, mas nunca fazer; grande talento: a vida transformada em lamento. Rodo a roda, giro o lamento, um grito de desespero em meados de janeiro quando o sol queima forte minha enrugada fronte cansada, depois chove devagar nas ruas frias das calçadas secas das velhas cidades em neon, os letreiros coloridos em prédios descorados trazem uma alegoria de sons, de sabores e de visões de suas janelas sujas cheias de memórias prensadas. Horror na noite, cidades viram caos pelo prazer, pelo sexo comprado por dinheiro, pelo dinheiro comprado pelo sexo, pela bebida derramada nos carros, pelos cinzeiros cheios de cigarros baratos. São essas cidades as vias do pensamento de um poeta, e o poeta nada mais é do que um grande louco com bordas floreadas em rimas, mas quando a rima acaba sobra um contentamento descontente de descobrir que o amor é um fogo gelado na ponta dos dedos, cheio de mistérios e segredos mentirosos.
Paro para respirar dentro do ônibus e uma senhora de chale e pés descalços que bem poderia ser a morte caso estivesse melhor vestida me pergunta que horas são, tenho medo de saber que é a hora de minha morte e dou um pulo para longe, caio do veículo em um universo sem cor dobrado em um origami deixado na mesa de um restaurante chinês onde fui certa vez com uma garota legalzinha da faculdade que não tinha nome, mas eu chamava de Janne. Longos trens caem comigo nesse abismo preto-e-branco-e-alguma-coisa. Perco pontos em um jogo de basquete presando entre minhas unhas, mestre Métrica pede por um abraço, mas ainda estou caindo e o jogo não acabou. Fui atropelado pelo ônibus, mas a velha que não era a dona morte me salvou usando um buraco no novelo de lã que ela usava para tricotar as maiores meias que já vi na vida, do lado dela sorria com a caveira dona desesperança-e-fim, Maldita sorte que me fez escapar do abraço magrelo de dona maldita, maldita dona morte. 
Achei que fosse o fim e uma bola de gude em formato de azeitona caiu do céus em minha direção. Ela pairou em mãos minhas ganhas em um jogo de xadrez depois de acertar um bisco na quarta casa e mandar para o reino colorido um peão abençoado, mas um tanto herege. Nas mãos que eram minhas antes não perfeitamente pertencidas eu abri-as para ver cair delas um bolinho de chuva que antes era de gude, choveu no bairro, inundou o mundo, eu naveguei por aí...

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