Intercâmbio Maluco Se01ep05

Acontece que, como o Gigante havia convidado no dia anterior, naquela quarta, assim como nas quartas posteriores durante a tarde, eu iria à igreja com ele. Abrem-se as cortinas e entram os comentários, continuo sem fé e sem crença, mas uma importante parte da compreensão de culturas diferentes vem da religião local, e fazer parte desse processo é importante, não só para aprender sobre elas, mas também para aprender mais sobre o local e as pessoas que lá habitam, além de poder se associar a eles de maneira mais próxima. Eu voltei para casa naquele dia no ônibus, no banco de trás, e conheci o Atleta e a amiga loira de olhos azuis dele, a Juvenil, vou chamar assim por falta de criatividade. Eu não sabia se os dois namoravam ou eram irmãos. Em uma sociedade onde a demonstração pública de afeto pode ser considerada crime ficava quase impossível diferenciar as situações; mas eles perguntaram quem eu era e de onde eu vinha, eu falei que era do Brasil e troquei algumas palavras, para depois sentar em meu banco e me preparar para iniciar uma longa tradição de dormitadas folgadas no Snail Bus (ironia de nome, andava rápido demais para um veículo com infantes). Em casa eu tomei um banho e esperei pelo Gigante, que chegou em sua F-150 chamada Larry (nome real da caminhonete) acompanhado dele, o TeddyBear, um mexican-american, chamado sempre pelo sobrenome, baixo e gordo que gostava de tirar selfies com a mesma cara e jogava no time de futebol americano, o Gigante costumava jogar também, e agregou a maioria dos amigos ao church group. Entrei no carro com eles, conversei sobre coisas fúteis e sem necessidade de muita habilidade no inglês, e fomos para a igreja. 



A minha amizade com o Gigante povoa o enredo inteiro. Eu, sem entender os jogos e tramas daquele grupo de pessoas, andava com ele o tempo todo, tentando aprender, ganhando com aquela amizade enquanto me privava de outras coisas, como festas, álcool e uma quantidade absurda de mulheres que poderia se interessar – como algumas vieram a se interessar – pelo meu cabelo e meu sotaque exótico dos trópicos da SulAmérica. No primeiro dia na igreja o segui como um cachorro seguiria seu dono, e fui apresentado a várias pessoas, nenhuma delas eu realmente me interessei em conhecer naquele dia, exceto talvez a minha amada tão esperada, cuja participação máxima nesse dia foi me dar um oi e sair para falar com as amigas. 

Você já parou para pensar nos papeis que as pessoas têm ao seu redor, que elas desempenham na sua vida? Eu paro para pensar nisso agora, ou mesmo lá já pensava. Amizade é uma forte ligação entre duas pessoas que decidem compartilhar algum tempo pelo bel-prazer de poderem fazer as atividades que gostam juntas, um bromance é tipo isso, mas exclusivo aos homens e dedicado à conquista do mundo ou de senhoritas em bares (de How I Met Your Mother, por Barney Stinson – interpretado pelo engraçadíssimo Neil Patrick-Harris). As pessoas da igreja foram aquelas a quem eu mais me liguei na viagem, com quem mais conversei e passei tempo junto. Não sei, agora, se valeria troca-los por algumas festas e outras coisas (julgadas essenciais à vida por essa juventude mundana e limitada da qual eu faço parte e não nego), mas sei que eu repetiria a experiência com eles. Deixando de lado essa reflexão valemo-nos da descrição dos frequentadores do Youth Group da Immanuel Baptist Church. 

O pastor era um cara jovem e com a barba mais linda que já vi, vou chamá-lo de Abraão, junto dele estava a esposa, que vou chamar de Esposa de Abraão pois não sei o nome bíblico correto – creio ser Sarah, comentem embaixo por favor), e eles tinham uma filha, que se não me engano deveria se chamar Isaac, mas é uma menina, então vou chama-la de Isaaca. Conheci também o Muinto, com N mesmo, um rapaz loiro e gordo, forte como um cavalo de tração dos campos dourados das terras cheias de bruma da Inglaterra, Muinto era um grande amigo do Gigante, também do futebol, e era um sophomore assim como o TeddyBear. Junto ao Muinto havia o pai dos grandes homens, e ele será Golias, o excriminoso acrescentado ao grupo da igreja pela força de vontade do Gigante, sim ele outra vez, um sênior com o objetivo de se tornar bombeiro e/ou policial. Golias era um cara peculiar, temperamental, com gostos claros e sem o medo de mostrar o que o agradava e o que não o agradava, eu tive um certo medo dele – depois descobri que ele andava armado, obrigado EUA por me proporcionar isso. Conheci a atual namorada do Gigante, a Hobbit, uma garota simpática que prestaria atenção com o maior prazer a qualquer coisa que você dissesse, tamanha era simpatia dela. Hobbit era líder de torcida, Gigante foi jogador de futebol americano, um clichê? Bem jogado, bem jogado, mas eram o casal máster da igreja, e até onde eu soube, comportados. Uma das exnamoradas do gigante era a rainha do baile e musa dos corações de Nashville High School, a Queen, outra simpática, mas muito atarefada, garota do grupo. Se você não consegue imaginar todo mundo simpático pense no seguinte, eles me receberam lá e até agindo como um maluco eu tinha a companhia deles, logo, muito simpáticos. Podem não ser abertos e espontâneos, mas hey, alegria na vida como a dos brasileiros são poucos quem têm. As caçulas do grupo eram as três moças, Dancer, Traquinas (piada com uma jovem acima do peso, um absurdo ou um absurdo? Eu não posso me eximir de dar nomes que os caracterizem por algo, notaram como são muitas as pessoas ao meu redor? E estamos apenas no segundo dia de aula, eu precisei de meses para decorar todos os nomes), e a Sorrisinho, elas me adoraram e eu me sentia um popstar, para então me lembrar que todas tinham por volta de treze anos e estavam inaptas para me julgarem de acordo com os parâmetros corretos, isso fazia bater uma bad, mas as garotas eram legais e eu gostava de falar coisas filosóficas com elas e ver se aprendiam algo (ou paravam de simplesmente concordar com toda e qualquer frase dita por mim). Na foto que imprimiram para mim no meu último dia estão quase todos, é uma das fotos que tiramos para uma viagem (chegarei a ela) e aparecem muitos deles. Não posso me esquecer do BeatBox, albino e com estilo das ruas, tartaruga mutante ninja nas horas vagas e mestre das piadas oportunas, risada suprema e longos, sedosos e lindos cabelos louros ele era quem competia comigo pelo título de melhor cabelo, assim como o de palhaço do grupo (vitória no primeiro, derrota colossal no segundo). Tinha também a BlackHair, uma garota com o cabelo mais preto que eu já vi, além de olhos azuis e ser extremamente animada. Por último, mas não menos importante (last but not least) vinha o único, o individual, o exclusivo, o destaque, o diferente do grupo, um, e apenas UM, Jamal (nome fictício), o negro em meio a vinte brancos na igreja. Esse aspecto de lá, para mim, foi o que mais marcou, ficava nítida a segregação entre grupos, inclusive na religião; aquilo, levado àquele ponto dentro de um contexto tão específico, mostra como é o país até hoje. Jamal não era destratado, pelo contrário, era amigo do Narcos, que também ia àquela igreja - foi lá que comecei a conhecê-lo na real -, mas fazia-se o único african-american em meio a um grupo grande, contando também e somente com um único mexican-american. Se era intencional deles eu posso dizer que não, mas o meio possuí seus mecanismos para gerenciar e perpetuar essas atividades, cabe a cada um de nós identifica-las e interrompe-las como John Galt parou o motor do mundo. Jamal era baixo, forte (campeão da competição de barras promovida pelo exército americano na escola), usava dreads no início e era um cara feliz. Conversei bastante com ele também, nos falávamos frequentemente; dei o nome de Jamal justamente por ser um cara maneiro e com estilo. 

Depois da igreja fomos e íamos sempre ao Starz, com Z, um restaurante onde eu passaria muitas horas após a igreja comendo Chicken Chunks com aquele molho ainda sem nome (ranch) e jogando conversa fora (ou tentando acompanhá-la a princípio). No primeiro dia o trio Dancer, Traquinas e Sorrisinho, pediu meu telefone – número americano, primeira coisa que descolei – e elas acharam aquilo uma tremenda falta de gentileza delas, dizendo que não sabiam se poderiam, se eu me importaria, se poderiam mandar mensagens... o número de alguém chega quase a ser uma identificação pessoal privada, e dificilmente você o pede assim sem conhecer a pessoa (tire da sua cabeça os vídeos de pegadinha de canais americanos como o Whatever, do qual gosto muito). Eu passei meu número, afinal sou brasileiro e não me importo nunca, gastei meu tempo lá, chorei internamente pela ausência da minha musa e depois fui para casa.

Ah, minha casa, home sweet home (Alabama não, Arkansas, muito melhor), meu sagrado templo de repouso e horas gastas escrevendo, lendo e vendo filmes. 

É chegada a hora de falar sobre a minha casa.

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