ela
Eu não acredito em amor, mas se acreditasse, seria isso que sentiria por você. E não seria por sua beleza, que me é estonteante - veja bem como me perco e descrevo -; não seria por usa gentileza, que me é salvadora nas horas mais negras e confusas de meu ser - todo ele, assim -, mas por você ser quem é, ter esse sorriso capaz de iluminar qualquer momento de meu dia, por ter esse olhar capaz de me segurar a todos os instantes pelo tempo que quiser, por me fazer pensar em você nas noites frias ou quentes, escuras, longe como estamos desde sempre nessa linha cinzenta corrida pela história apesar do início bem colorido à tinta. Se vejo seu rosto em vida ou pensamento sou capaz de resistir, ainda que por pouco, aos acessos de desânimo da vida a me rondar cada vez mais de perto conforme avançam as datas e me forçam a ser quem não sou. Amor é veneno em minha boca, corrói-me ao falar - desde que nos beijamos, e faz já tanto tempo; me fere dizer dizer isso, pois não digo seguido de teu nome, pois não vivo seguido por fases - em dias - de você; por ti volto a repetir ainda essa vez - mas não me retribua com afeto, espero um tapa e um sorriso de escárnio, distância. Me viu como eu não poderia ser visto, me ouviu quando eu pedia silêncio, me despertou quando eu esperava o sono - e que sonho do qual acordei e nele havia você!
Me empurre para longe, não ouse me levar para mais perto, sou como vidro em tensão: mais um pouco e me quebro.
perguntas
Se eu lhe beijasse agora, se importaria?
Meu beijo recusaria, ou iria me ignorar?
Fazer olhos mortos e deixar passar essa ousadia,
deixar morrer essa minha alegria -
em poder te tocar e desafiar sua e minhas razões.
Se eu lhe abraçasse agora, me envolveria?
Teu calor a meu corpo frio daria?
- esse meu frígido pedaço de matéria
no outono ameno desse fim de vida,
amarelo presságio de morte.
Se eu tivesse a coragem de perguntar, responderia?
Não sei, e creio que você, também,
nunca saberá.
revelação
O único motivo pelo qual estamos aqui
é sentir essa ardência ao viver
chamada felicidade.
Mas feliz quem fui eu
ao dar um passo distante e,
sabendo,
me afastei eterno daquilo que me seria -
agradável.
Carranca
carranca
pede o sapatinho
que perde o sapatinho
que tem o menino
que roda sem parar
carranca
roda a melodia
me desperta alegria
do menino serelepe
que pratica essa
carranca
de noites suadas no travesseiro
esperando pelo sono que não veio
a pensar nela verdade inconveniente
verdade inconsequente
com aquilo que queria que fosse
com aquele negrume choroso sob o ventilador
reclamando do mundo e lançando uma
uma carranca
máscara de tudo da dor e da morte
Filosofia forçada
Fazer é de certa forma querer
- que tudo mude o mundo,
que o mundo gire sem tempo e seja desejo
- que arde em cada um de nós -
- que somos todos peças de um jogo,
um jogo de infinitas peças perdidas,
peças caídas no chão cheio de sangue
das vítimas de tal jogo,
o jogo - de fazer e querer...
querer que o mundo mude e continue girando,
mas os olhos fechando
para as partes desconexas aos lados
até sermos quem somos querendo,
querendo fazer.
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