Intercâmbio Maluco Se01ep02

PARTE UM - Aqui mesmo você pode ler a parte 1

Brasileiros tem muita fama de serem receptivos e educados, mas os americanos não perdem muito nisso. Todas as pessoas que conheci eram receptivas e gentis comigo, fosse porque eu era brasileiro, fosse porque eu tinha milhares de truques para impressiona-los e ganhar a confiança deles (se não puder ser sociável então seja atrativo como um parque de diversões cheio de anões e balões). Na festa as pessoas falavam um pouco comigo e eu tentava me mostrar educado e respondê-las sem soar como um primata desengonçado, falhei, mas naquele dia falei com o Alemão, um brother, como de se esperar, da Alemanha, alto e misterioso a mim naquela hora. Chamaram-me para o time de track, que mais tarde descobri ser atletismo, puxei assunto com uma garota e descobri alguns segundos depois que ela tinha namorado – fiz uma piadinha e acho que ela não entendeu o meu sotaque. Depois de virar o ano e os americanos se mostrarem sem graça alguma para festa – sem música, sem os “parabéns, feliz ano-novo”, passados tradicionalmente pessoa-a-pessoa, sem muitos comes e bebes, apenas uma fogueira do lado de fora e um violão, além de basquete e futebol americano no escuro. Fui para uma sala, que naquela casa havia – olha a prolixidade ao inverter a sintaxe da sentença (olha a loucura ao escrever assim...) -, sentei no sofá e vi um americano jogar Batman Arkhan City, acompanhado do Alemão. Dormi no sofá e disse que estava tudo certo. Meu host dad chegou depois de algumas horas, o cachorro dos anfitriões da festa tentou ir embora conosco (fiz uma forte amizade com ele – roubou meu lugar, mas era finíssimo e tocava piano), dormi mais um pouco no carro, cheguei em casa e dormi de novo.


Era uma semana de férias entre os feriados de Natal e Ano-Novo, por isso as aulas ainda não haviam voltado. De modo geral pouco fiz naqueles primeiros sete dias, exceto comer, dormir e conversar com a host Family. A brasileira se despedia dos amigos dia-a-dia, saindo às vezes com as americanas. Foi a primeira vez que ouvi falar de meu amor platônico e impossível, cujo nome não direi aqui, mas cuja história começou semanas antes quando descobri qual era a minha cidade e minha escola, entrei no site da escola, vi as líderes de torcida e tentei adicioná-las no Facebook. Americanos tem certa precaução quanto a redes sociais, então todos os convites que enviei foram recusados. Ali eu a vi, entre as líderes de torcida, zombei do nome, pois não havia o relacionado à face, e essa história muito se desenrolaria posteriormente, com um final trágico e sheaksperiano.

Passou-se uma semana, a brasileira voltou para a pátria amada, conheci uma espanhola amiga dela na viagem até Texarkana para deixa-la lá, voltei conversando um pouco no carro. Segunda teria aula, mas não precisei ir, pois era dia de troca de horários e não poderiam me encaixar de modo decente naquela bagunça. Meu primeiro dia de aula seria no dia seguinte. O host dad me levou na escola, fomos à secretaria e arranjaram-me as aulas, descobri que a escola trabalhava apenas com quatro aulas, mas o sistema brasileiro precisa de cinco, decidi dar meus pulos por aí e fazer um esporte fora do horário das aulas. Na secretaria conheci um cara maneiro cujas primeiras palavras foram “Você é do Brasil? Vocês tem garotas bonitas no Brasil?”, essa pergunta estava fadada a se repetir inúmeras vezes, mas eu respondi que sim, haviam garotas bonitas no Brasil. 

Fui direto para a segunda aula, com toda a discussão quanto à minhas matérias não pude ter a primeira de química, ficando para o dia seguinte. Entrei na aula de inglês, entendi quase nada, sentei-me a mesa com um cara branco desconhecido e dois negros (afrodescendentes aqui, african-americans lá, ambos os termos ainda me soam racistas por tratarem-nos por uma herança genética, e por não se referirem a eles diretamente como americans ou simplesmente black people – por falar nisso racismo lá é coisa fácil de ver), um cara com sotaque do ghetto – muito maneiro, cheio de musicalidade e estilo – e uma garota forte, musculosa, que posteriormente descobri fazer parte do time de basquete e outros mais. A professora era jovem, com cabelos loiros e olhos azuis (coisa comum lá), era simpática, mas falava muito, eu repito, muito alto e muito rápido. O primeiro mês foi uma adaptação cruel naquela aula, pensei ensurdecer aula após aula nas classes de inglês – na verdade literatura, mas sob o nome de inglês. Após a aula de inglês, a primeira naquele dia, fui para a aula de história americana, pois dentro da escola eles possuem três histórias – americana, ocidental e mundial. A professora tinha um tique de sorrir que entendi apenas no final da viagem, era boazinha, mas passava muitos filmes e vídeos. Víamos umas notícias, se me lembro bem, da CNN todas as aulas pela manhã, e ao final da semana, na sexta, costumávamos, até o meio do semestre, tomar testes quanto ao conteúdo do que ele falava. Na primeira aula reencontrei o cara da secretaria, e depois descobri que ele estava se tornando um marine, que é o BOPE do exército americano. Nessa aula também encontrei aquele que viria a ser o maior amigo que tive na viagem, tirando um brasileiro ainda a surgir nessa história. Esse cara também trabalhava na secretaria e, naquele dia, antes da aula de história, durante a aula de inglês, me mostrou onde ficava o local para pegar o ônibus, daqueles amarelos bem comuns em filmes americanos. Ele, que vou chamar de Gigante, porque era alto, como é de se esperar de um gigante, me convidou naquele dia mesmo para a igreja dele, fique aqui registrado que sou ateu, e continuo sendo, mas para melhor entender aquela cultura eu fui para a igreja, e sobre ela eu vou falar quando for a hora. Eu pegaria o Snail Bus pelo resto dos cinco meses, salvo dias especiais. Na aula de história eu destoaria como o mestre do saber e do conhecimento mundial, ganhando a admiração da professora, mas isso fica para depois, pois o sino havia tocado, cortando a aula (cuja duração total assim como todas as outras era de uma hora e meia) pela metade, levando-nos ao lunch, na cafeteria cuja passagem inicial era ao lado de minha sala de história, posição favorável a nós, famintos estudantes esperando por nossa refeição de duas doletas. 

A cafeteria por si só merece um parágrafo de descrição. E aqui entra também outro comentário sobre como os EUA vendem sua imagem real ou paródica, ao mundo. Aparentemente quem primeiro teve a ideia sobre o marketing de imagem dos EUA pensou em destruir com a concepção idealizada do local. Mesmo que hoje sejamos capazes de encontrar quem seja capaz de imaginar lá como a terra das oportunidades, fica cada vez mais difícil fazê-lo, afinal temos um grande acesso a informação que nos proporciona uma visão mais realista das coisas. Ainda assim, voltando à questão do marketing, o responsável por essa parte, suponho eu aqui em uma cena parodiada, agiu assim:

Ora essa, John está sentado em seu escritório e tem a melhor ideia de todas, derrubando o copo de café vazio – quinto naquela noite insone a procura de respostas para aquele desafio – no chão e rabiscando palavras curtas e simples no papel, ele sorri consigo sozinho, satisfeito. As letras finas e cursivas formavam no papel amarelado uma única sentença “Mostre o que temos da forma que temos”. Não só ele acharia genial, como todos os executivos da campanha.

A verdade é que, de todas as coisas que vi no país, a maioria assemelhava-se àquilo antes mostrado a mim pelas mídias americanas (cinema, música, televisão). 



Na cantina, cafeteria para eles, as longas mesas dispunham-se ou longitudinalmente ou latitudinalmente, longas mesas repletas de cadeiras – em que não podíamos ficar sentados caso não estivéssemos comendo. Para além da área maior onde entrávamos para comer haviam três portas no fundo, uma em cada canto e outra no centro, além de alguns hacks com talheres e molhos (se você gosta de ketchup, mostarda e maionese, adoraria os galões de lá). Entrando pela fila da comida (a fila do pão fica na Rússia, lamento) você pegaria uma daquelas bandejas e seria servido de acordo com a mais bem pensada dieta de todas (exceto às sextas quando eram honestos de nos servir simplesmente hambúrgueres) contendo leite industrializado naquelas caixas quadradinhas e pequenas, uma concha de feijão que por algum motivo bi-universal possuía sabor doce, alguma verdura ou legume cozida e intragável (a mim todas as verduras e legumes são, no geral, intragáveis, mas lá a coisa fazia-se ainda pior pelo modo como eram servidas), um carboidrato (vide pãozinho) e uma carne (beef strips, chicken strips, macaroni and cheese que colava no pote e ficava de ponta cabeça por mais de cinco minutos cronometrados, fish strips/baits, umas outras coisas menos frequentes como pizza e outros como comida mexicana), além de poder pegar uma fruta, ou poderia escolher ao invés da refeição normal uma salada que vinha com um molho excelente que esqueci o nome mas vou descobrir em algum outro momento – essa parte foi acrescentada posteriormente e o nome do molho é Ranch. O tempo para o lunch era de quarenta e cinco minutos, poderíamos usar o antigo ginásio de basquete para gastarmos nosso tempo nas arquibancadas, jogando basquete ou fazendo nada (na primavera abriram-se as portas para o lado de fora e podíamos ficar sentados nas mesas de metal todas furadas, propositalmente, que haviam no gramado). Depois do lunch havia mais um pouco da aula de história, mas no primeiro dia de aula as coisas foram um pouco diferentes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário