Intercâmbio Maluco Se01ep03

Eu não entrei para comer naquele dia, ou não me lembro de tê-lo feito, mas sei que saí da cantina e fui para a porta que dava acesso ao interior da escola novamente e de lá para a sala de história. A porta estava trancada, procedimento padrão para os alunos não entrarem e colocarem bombas dentro do ambiente de estudos comum a todos, então eu fiquei esperando. Pouco a pouco aproximaram-se de mim, aqueles que no Brasil seriam chamados de favelados, bandidos ou idiotas (tolice descomedida e generalizante), mas lá eram o ghetto. Entenda bem antes de me chamar de racista, o processo de rompimento com a segregação racial nos EUA levou tempo, e foram necessárias várias tentativas (Luther King, Malcon X, etc etc) para desvincularem a sociedade das leis segregacionistas. Isso aconteceu até a década de 70, passaram-se apenas 40 anos, as coisas não mudaram de maneira drástica nesse tempo todo – lembre-se também que eu estava no sul, e no sul as coisas são um tantinho piores (Ku Klux Klan e coisas assim). Logo, aqueles que vieram falar comigo no primeiro dia eram negros, agiam ghetto – que eu achei a coisa mais descolada da terra, sério, se você não fala daquele jeito e não age daquele jeito, não é legal, e para eles era natural daquela forma, ser cool, ao meu ver, era ser como eles, dançar, cantar, rimar e mandar muito nos esportes (brancos fedem a danone). Tentei me integrar, mas me senti o Slim Shady em Detroid; eram simpáticos, perguntaram se havia weed legalmente no Brasil, eu disse que não, me perguntaram se haviam muitas hoes no país, eu disse algumas, fui ovacionado, eles mal me entendiam, não sabiam falar meu nome (até o fim da viagem eu seria conhecido por Joe, ou SuperJoe para aqueles que me conheciam bem e sabiam o quão incrível eu era), mas adoraram meu sotaque e ficaram ao meu redor dizendo coisas que não entendi. Alguém me ofereceu (vou chama-lo de Carlitos pois nunca descobri o verdadeiro nome dele) uma garota dizendo que ela era a hoe americana, ela começou a bater nele, o sino tocou e eu voltei para a aula achando tudo aquilo um máximo. Carlitos futuramente viria a me encontrar nos corredores da vida e da escola e sempre dizer meu nome com um sorriso no rosto e cheio de alegria, grande cara o Carlitos. 




Depois do intervalo veio a última parte da aula de história, fiquei quieto e encontrei um cara da aula de história lá. Eu me perdia com facilidade nas primeiras semanas e as pessoas viviam me ajudando a encontrar as salas. Após a aula de história americana vinha matemárica, a última em período integral. Ali eu conheci alguns outros seres que viriam a ser parceiros intermitentes na viagem, além de ver um ou dois sociopatas em potencial e sobre eles eu falarei depois. Nessa aula eu descobri que haveriam problemas, era Algebra II, começando com equações lineares, eu tinha quase 18 anos e estava voltando para equações lineares; sussurrei um “obrigado, Obama” e decidi não reclamar para ser o aluno mais inteligente da sala. Teve um teste e eu mal entendia o que deveria fazer, nesse eu fui mal demais. As coisas não pareciam boas, bateu o sino sem mais incidentes e eu fui para o Snail Bus.

Antes que perguntem, sim, o ônibus era igual ao dos filmes. Placas de sinalização se abriam de ambos os lados, ele era amarelo, com bancos de couro, e todos ficavam lado a lado no final da aula, em uma área que seria ponto de encontro, dessa maneira, para todos os estudantes do High School e do Junior High, ensino médio e fundamental dois, respectivamente. Aqui vale fazer outro comentário, se você tem mais de dezesseis anos por lá, há grandes chances de ter um carro, e por grandes chances eu quero dizer que o estacionamento dos alunos era grande, e grande com força. Pense em um estacionamento de estádio, era por aí, e tudo para estudantes pararem seus possantes envenenados ou caminhonetes monstras para irem a aula. Exagerei no estilo dos carros, mas eram todos automáticos. Enfim, no ônibus iam, em sua maioria, crianças. E por crianças eu quero, na verdade, descrever pequenos psicopatinhas recheados de terror e energia para espalhar pelas superfícies que encontram, além de se atacarem o tempo todo. Uma ou outra criança tinha bom-senso, mas essas eram novas demais, e como fruto do meio um dia seriam tão loucas quantos as outras. Esqueci de dizer, mais uma vez, que fazia um frio desgraçado, e eu usava dois casacos e duas calças para ir a aula, inclusive com o sistema de aquecimento da escola mantendo tudo em decentes vinte e cinco graus. Entrei no ônibus, no primeiro dia me sentei próximo do motorista, vou chama-lo de OldCop, que era um sujeito rosado e gordo, velho, rabugento com as crianças, mas extremamente educado quando estávamos nós apenas no Snail Bus da alegria eterna de viagem, ida e volta somados, de duas horas. OldCop fazia as crianças calarem a boca e ficarem sentadas enquanto ele disparava pelas ruas largas e sem buracos (haviam raras, muito raras exceções, como o caminho dentro das terras de um moleque do ônibus, o EggFace, que não eram bem cuidadas) dirigindo o velho carregador de infantes pelas terras quase implacavelmente planas do sudoeste do Arkansas. Como fui na primeira fileira, e as fileiras seguiam uma ordem decente de soberania, os mais velhos ao fundo e os mais novos à frente, eu estava na linha de fogo da saída do veículo e atrás de três garotinhas, uma mais velha, com ar atarefado de futura executiva, dessas de cabelo curto, terno cinza e olhos mortais, e duas mais novas, primas dela. A mais velha foi falando comigo e eu apenas concordava, evitando me mostrar um mentecapto quanto à minha fala, mas a mais nova achou legal puxar o meu cabelo e, em dado momento enquanto brincávamos, socar o meu olho. De mãos fechadas em um nó juvenil ela acertou minha córnea, esquerda caso me lembre bem, com um sorriso no rosto. A jovem executiva não acreditou naquilo, eu disse que estava tudo bem, cheguei em casa depois de uma longa viagem e fui me organizar porque haviam, e me contaram aquilo nas aulas, deveres de casa. 

Agora, dado o fim de uma parte fechada de nossa aventura pelas minhas memórias, vou falar um pouco sobre quem eram e como eram as coisas em cada ambiente desses descrito. A casa onde eu vivia será a última, pois é também a mais longa e complicada de se explicar. 

Se formos em ordem de chegada durante as tarefas do dia, o ônibus, que passava seis e quarenta e nunca atrasava sem motivo ou esperava mais do que trinta segundos, era minha primeira experiência. Depois de aprender minha lição eu passei a me sentar nos últimos bancos, possuía duas preferências, um banco único onde eu poderia ficar sozinho sem preocupações de ser ignorado e ter de sentar sozinho em um banco para duas pessoas, ou um banco para duas pessoas de onde saía um cano para o chão com o aquecimento, e nesse banco eu me sentei especialmente no inverno, esticando os pés para aquecê-los na parte da frente, saboreando minha descoberta com certo orgulho. Entravam nele, pela ordem que me lembro e de quem me lembro: as irmãs da casa de contêineres, ou assim parecia. Ambas de olhos claros, sardas no rosto e pouca paciência para aquele inferno sobre rodas (há de se convir que estavam com razão ao odiarem o lugar). A mais nova era mais magra e mais bonita, o rosto mais balanceado, os cabelos louros, mas era jovem – uns doze anos talvez -, e se sentava longe, nunca falou comigo ou quis falar (e eu quero saber o porquê, se sou tão legal e de aparência amistosa quando tomo banho – o que é sempre, caso queiram saber). A mais velha chegou a conversar comigo uma ou duas vezes, em um dia, mais para o final do intercâmbio, ela esqueceu as chaves dentro do ônibus e as guardei, afinal era o último lá, entregando a ela as mesmas após o fim de semana. A mais velha usava aparelho, era uma sophomore, o que corresponde ao primeiro ano lá, e, quando a ouvi conversar com a amiga um dia, estava de fone e ainda assim podia escutar as vozes das garotas através do meu santo e importante Eminem diário, mostrou-se bem para frente quanto ao linguajar, as atitudes e, se peguei um trecho de conversa certo, as ações. Ainda assim foi educada comigo, então não tenho do que reclamar. Depois vinham os irmãos EggFace, que já citei como morador da casa onde a entrada era meio ruim e cheia de barro, os três eram novos, mas o mais velho entre eles deveria ter por volta de dez anos e andava com os psicopatinhas do ônibus. Um dia, esses digníssimos seres ficaram a tampar lápis em meu cabelo enquanto eu dormia profundamente no Snail Bus, a barca do inferno. A irmã mais velha da casa de contêineres chamou a atenção dos garotos, mas quando acordei e ouvi dela a explicação disse que não valeria o tempo perdido, abaixei a cabeça e voltei a dormir. Depois do EggFace eram algumas outras crianças. Tinha o RatFace, sempre usando um boné de Call of Duty, levando seu instrumento da banda da escola com ele, além de carregar a irmã mais nova – mesma cara, diferentes sexos – e o irmão caçula, uma criança muito maneira com síndrome de Down que um dia sentou comigo e com o Atleta, também parte do ônibus, mas intermitente como os rios do sertão, e ficou por lá curtindo a viagem acelerada do transporte de jovens mais perigoso da galáxia. Não só o RatFace, outro sophomore se não me falha a memória (Atleta também era sophomore), mas havia o Psicopata1, um cara esquisitão, fazendo questão de manter o bigode/penacho no rosto, olhos azuis – porque todo mundo lá tinha os desgraçados olhos azuis (exceto minha amada, que possuía íris verdes como as campinas do sagrado Éden), o braço direito menor que o esquerdo e uns papos muitos loucos com uma voz continuamente rouca. Eu não sei o que o Psicopata1 tinha, mas fui legal com ele durante aqueles cinco meses, ou fui legal quando ele conseguia ficar mais ou menos quieto e manter uma conversa, não um monólogo – ele, caso eu abrisse espaço, falaria o tempo todo sobre as pessoas, como não gostava delas, como não gostava do mundo e sobre como dar uns tapas em alguém os vários 'alguéns', mulheres batendo em homens muitas vezes, resolveria os problemas ao nosso redor. Ninguém gostava muito dele, e ele veio de outra cidade, Seattle eu acho, então me ressenti por ele e gastei umas horas no ônibus conversando (Psicopata1 viria a protagonizar um dos episódios mais loucos da aula de matemática nas primeiras semanas, mas logo eu chego lá). Além do psicopata entrava a irmã calada dele, também da banda; dois irmãos muito diferentes, um – o que deveria ser o mais velho e levava uma barbicha ao rosto por inúmeras semanas -, tinha cigarros sobre a orelha, zoava os criminosinhos do ônibus e falava com as minas de lá – uma em especial que me fora apresentada na igreja (estamos chegando a esse momento) mas que nunca me dirigiu palavra e era agressiva para cacete. A irmã desse cara parecia um fantasma – BU – não, ninguém via. Tinha o FDP, a criança mais desgraçada daquele ônibus, que em alguns dias conseguia o primoroso milagre de ter todo mundo contra ele ali dentro, além de não parar quieto um segundo sequer, fazendo piadas e brincadeiras com tudo e todos como um rádio da “Praça é Nossa”. Por falar em rádio o OldCop só ouvia o mesmo rádio todos os dias, um de country, e nesse rádio tocavam as mesmas músicas todos os dias, quase em ordem igual, na ida e na volta. A futura empresária possuía irmãos gêmeos univitelinos a julgar pela aparência dos dois, diferentes, brigavam o tempo todo e vez ou outra integravam a turba de capetinhas soltas pelo veículo. De resto haviam crianças menores, um garoto autista loiro de olhos azuis que tinha um pai policial e na casa dos avós um cachorro de raça boxer (se eu notava isso tudo ou se eu inventei isso agora? Eu notava. No ônibus não havia muito a ser feito e eu gostava de julgar aquele pequeno mundinho de castigo onde estava preso).

Nenhum comentário:

Postar um comentário