Intercâmbio Maluco Se01ep04

Passado o ônibus chego à escola. Todos os dias eu chegava alguns minutos mais cedo do que o normal, e nos primeiros dias parei ao lado da porta da sala de química esperando como um idiota pelo sinal e pela chegada do professor. Até que esse, o chamarei de Yoda – nas palavras dele haviam apenas duas coisas de que gostava, química e Star Wars –, contou-me a respeito da cantina e sobre como todos os alunos ficavam por lá até ser hora de irem para as salas. As aulas de química, como tive apenas química e não química avançada, foram mais ou menos do início da química e ensinamentos sobre o sistema métrico e como usar um béquer até estequiometria simples, sem excesso ou impurezas, em apenas cinco meses. Um feito e tanto, convenhamos, mas pela falta de tempo não se aprofundavam muito os temas. Esqueça isso, porque o Yoda era engraçadíssimo e um excelente professor. Em todas as salas de aula estavam instalados computadores e quadros interativos para os docentes, isso porque falamos de uma escola pública – essa iniciativa, caso me lembre bem, veio do Clinton -. O Yoda usava esses recursos com decência. Embora escrevêssemos no caderno de acordo com o que ele escrevia no caderno dele - e aparecia no quadro interativo -, a aula transcorria bem, e os recursos eram bem administrados. Naquela sala estavam o Brigão (mais para o fim dessa longa história), a minha parceira de laboratório, a Chiclete (ela os mascava de boca aberta, e por isso talvez eu tenha pensado muito em alguns dias em cometer um assassinato acidental no laboratório), o ThinCracker, os FatCrackers, a Anã (baixa, mas não anã de verdade), as Barraqueiras, o Bob (vou chama-lo assim porque me faltaram mais ideias), a Capital (o nome dela era o nome da capital de um dos estados) e outros menos importantes se não lembro deles agora. Bob e o Yoda eram excelentes como dupla de comédia, não tive muitos dias ruins começando a estudar, e o Mestre Jedi punha a sala dele bem fria, de modo que era ficar acordado ou morrer. Dagobah (referências para aqueles com um mínimo de informação sobre a cultura pop) era decorada com quadros com frases motivadoras, algumas informações sobre química, a bandeira americana presente em todas as salas (fazíamos o juramento a bandeira americana na primeira aula, e apenas o aprendi por inteiro nos últimos meses), além da mesa de computador, a base do Yoda, uma mesa de computadores ao fundo, as bancadas para as duplas, eu e Chiclete dividimos a mesma bancada por meses a fio, uma parada guardando aproximadamente vinte, sim eu disse vinte, vinte laptops para cada aluno. Laptops esses que existiam em quase todas as salas. Por favor, pense nisso quando for falar de ensino no Brasil – se não há sequer financiamento decente para as merendas e infraestrutura, não poderemos ter laptops para serem usados como complementos aos estudos -. 



Seguindo pelo nosso dia chegamos à aula de inglês, onde a Capital estava, além de uma outra garota, a Maquiadora, integrante das Barraqueiras (passava meio quilo de produtos estéticos no rosto entre o primeiro e o segundo horário), que vinham da aula com o Yoda. Somados a elas estavam o Narcos, o garoto branco de cabelo louro liso jogado ao estilo Justin Bieber nos primeiros anos de carreira, o Zé1, o cara da voz com sotaque legal, a Basqueteira – ainda falando sobre a mesa onde me sentei no primeiro dia. Depois conheci o Mecânico e o Futebolista, que se sentavam nas primeiras semanas junto à Capital, tinha também o quarteto do fundão, Dreads, Highlegs, Frodo e Sam (dois negros baixos e magros que por algum motivo se integravam ao grupo dos atletas). Com a Maquiadora sentava-se a Mudinha, que eu só vira rir algumas vezes. A professora era a Novinha, com apenas vinte e cinco anos, cabelos loiros e, que novidade, olhos azuis, além de algumas espinhas no rosto. Era baixa, o Gigante depois diria que ela era bonita, mas não a achava tão bonita assim, animada e cheia de métodos alternativos para tentar fazer a minha turma ler. Foi na aula dela, ao descobrir que havia um determinado número de páginas que deveria ler, que pela primeira vez li algo do Paulo Coelho, lá por aquelas terras ele vende mais do que Coca-Cola no deserto, e na biblioteca da sala havia O Alquimista disponível. Esse foi o primeiro de muitos. Apesar da dificuldade causada pela língua eu li bastante coisa em inglês por lá, como os livros três, quatro e cinco da série Gone, de um cara chamado Michael Grant, li O Senhor das Moscas e recomendo muito a quem goste de romances ingleses (esse explora muito bem a psicologia de grupo quando não existem mais regras e as pessoas, no caso crianças, precisam se adaptar a esse novo mundo), li Of Mice and Men¸ do mesmo cara que escreveu Grapes of Wrath, e fiquei chateado com o final (o filme passava semelhante sensação desoladora, mas perde um pouco da forma como as coisas são explicadas, ao meu ver, apesar disso é uma excelente adaptação e tem atores muito bons no elenco), li dois dos livros de filosofia que havia levado, mas só disse isso aqui para ser babaca e mostrar que leio filosofia – isso caso não estejam me considerando babaca pelo modo como descrevo e ponho nomes nas pessoas dessa história -, li Um Estudo em Vermelho de Sir Arthur Conan Doyle, e não li a segunda parte porque achei chato, fiquei tentado a ler Les Miserábles, do senhor autor, e influência a Castro Alves, Victor Hugo, mas sabia não ter tempo para gastar naquela leitura, li O Dia do Chacal, um romance policial excelente e capaz de prender o leitor, inclusive se considerarmos que se trata de uma tentativa de assassinato ficcional – escrita por um importante jornalista, não me lembro se francês ou inglês, chamado Frederick Forsyth – do presidente Charles de Gaulle da França, sabemos que o presidente não foi assassinado, e ainda assim somos capazes de ler atentos a cada palavra aquele jogo de gato e rato entre o Chacal, uma espécie de James Bond anti-herói, e o detetive Lebel, o cara com a profissão mais ingrata do mundo. Eu devo ter lido mais, mas não lembro ao certo, contudo, em cinco meses não precisei de deixar de lado esse hobby, bom hobby, que é a leitura, de lado. 

Da aula de inglês eu ia para a aula de história, e inicialmente acompanhado da Capital, que, honestamente, parecia ter interesse em minhas lindas madeixas encaracoladas. O Gigante me contou umas paradas pesadas dela, e meio que me desconvenceu a andar com a garota, como ele era um bro e todo mundo sabe a regra número um do Bro Code, eu conversei pouco com ela (que tinha umas tatuagens feias demais espalhadas pelo corpo, pareciam falsas, mas estavam um tanto desbotadas) fora da sala. Se fui uma pessoa ruim, o Gigante, que aqui mais se assemelha ao Golias opressor e bíblico, também me disse para não andar com o Bob, porque o Bob, segundo ele e toda a escola, era gay. Bem, o boato não parecia ser de todo infundado, mas o Bob era gente fina, e dançava demais, na Prom Night vocês nunca vão ver alguém dançar tanto, o cara me lançou uma lambada frenética com uma gordinha, que tive a impressão de ver pela escola algumas vezes, fazendo todo mundo abrir um círculo para ver ele dançar. Bob também esteve bem vestido naquela festa, estilo é para poucos, e isso é para vocês verem como o julgamento das pessoas pode ser cruel com outras pessoas bem legais. Deixando o Bob de lado, porque afinal ele pertence à sala do Yoda, entramos na sala do Gigante, minha companhia quase diária naquela escola e praticamente exclusiva fora dela. Na sala com o Gigante e com o Militar estava a Tique (a professora não parava de repuxar os cantos da boca como se fosse sorrir, e essa ação me confundiu por quatro de cinco meses), o Zé2, primo do Zé1 cujo laço familiar me foi revelado em um dia qualquer de maneira natural (penteados parecidos e jeitos de falar e se vestir também, mas hey, os EUA são um país livre), o Lips, e esse era mesmo o apelido dele, só que foi pego fumando, maconha creio eu, dentro da escola, tomou suspensão por dois meses, voltou, teve um ataque em uma das aulas, e nunca mais vi o cara, mandava umas rimas excelentes e era engraçado, uma perda para a sala, Narcos estava ali, e demoramos a começar a conversar. Também o México, cujo nome era o mais clichê de todos, um cara maneiro e sênior na escola, com um bigodinho também clichê, mas que curtia conversar comigo e ainda nos falamos hoje em dia, tinha o Maromba, um mexican-american (nos termos ridículos do país), que demorei a começar a conversar (vamos chegar a ele e outros no evento Troca de Mesas no final do terceiro mês) e que era brother demais, tinha o Likes, um cara que se preocupava com curtidas em fotos do instagram, a QuietLady, de olhos azuis, cabelos emoldurando a face, poucas espinhas e muita, mais muita camuflagem social naquela sala, a BarracoRatata, porque ela parecia um Ratata do Pokemon e discutia com o Militar e com os outros caras, a Lycra, uma garota gorda, sejamos honestos, ela era gorda, que usava calças de ginástica, oferecendo ao público uma visão desonesta da natureza e da anatomia humana, e provavelmente mais alguém que me esqueci agora quem era. No fim do ano, lá pelo último mês, entrou o JailBreaker, recém-liberado da prisão por algum roubo menor, ele era pirado e naquelas últimas instâncias da viagem eu estava mais à vontade, então achei ele muito maneiro, era engraçado, com olhos malucos e por vezes esbugalhados, parecia capaz de enfiar uma faca em você a qualquer custo, mas se esforçava nas aulas e contava ótimas histórias, além de ter algumas tatuagens. Naquela aula fazíamos muitas atividades em folhas, víamos vídeos e filmes, eu precisei aprender onde ficavam todos, sim todos, todos os estados americanos e ser capaz de colocá-los em um mapa (primeira tentativa 70%, segunda tentativa 100%), precisei aprender o nome da capital de todos, sim meus leitores todos, todos os estados norte-americanos (consegui 35 no teste e era capaz de fazer 40 em ordem, decoreba suprema), vi Malévola, ou partes do filme, vi Indiana Jones 2, vi O Doador de Memórias, vi outros também, e muitos relacionados à aula. Cobri do período pós-guerra de Secessão até o governo Bush e a luta contra o terrorismo, mais ou menos a matéria do terceiro ano brasileiro vista do ponto de vista deles. Era uma aula boa e tranquila, eu sempre desenhava no quadro e roubavam as ilustrações para eles, especialmente o Gigante e o Militar, pedíamos para sermos liberados mais cedo e podermos sair para a cantina antes dos outros, pegando comida sem fila, conversávamos bastante entre nós e a professora, muitas piadas da parte do Zé2, do Militar, do Gigante, do Lips antes do acidente e do Jailbreaker quando ele entrou. Inclusive descobri que a mãe do Jailbreaker era capaz de cozinhar um peru de Ação de Graças inteiro dentro do micro-ondas, mas não me foram dados detalhes quanto à forma de se realizar essa proeza. Zé2 era primo dele também.

Cruzamos todas essas aulas e nos aproximamos da última delas, a de matemática, onde fui um ídolo, uma lenda, um máximo inatingível, um ponto futuro de uma equação onde a linha apenas toca o eixo-x no infinito, eu era o cara mais inteligente da sala e fazia isso de forma roubada (lidem com a minha falta de caráter ao ser brilhante em duas vias). Essa era aula da Baixinha, a professora menos eficiente entre todos os quatro, podia ser gente boa e ter me feito uma festa de despedida no meu último dia de aula lá, mas comparando os métodos de ensino e efetividade deles, a menos eficiente era ela – a verdade é neutra. Nessa aula estavam Psicopata1, do ônibus, Psicopata2, de quem eu vivia me esquecendo o nome, inclusive na frente dele uma vez, SrEstiloSqn, um mexicano com uma risada aguda insuportável e a tendência de se envolver na conversa dos outros, Randal, diretamente de Monstros S.A, da Pixar, para depois o Wisconsin e então Arkansas, uma garota com uma boca grande, literalmente, e inteligente até, mas dada a discutir com ThinGuy e BeardGuy, da mesa ao lado, os caras que acabaram virando minha companhia naquela aula. Thin e Beard sentavam-se juntos a Risonha, uma menina que falava de modo um tanto nasalado e engraçado, mas os dois consideravam-na bonita e ficaram em cima dela o tempo todo (ela tinha namorado, não por vontade deles), e junto a eles, de maneira incompreensível a mim até hoje estava o Batata, um cara nada inteligente e meio ingênuo que tem a cara semelhante às batatas que minha host mom fazia no micro-ondas (chupa essa manga, mãe do Jailbreaker!). Em outra mesa estavam os quatro branquinhos, que em minha opinião deveriam feder a Danone e serem todos chatos demais, um deles era o Grinch, aquele personagem do Jim Carey no filme homônimo ao personagem, em que ele é um duende revoltado com o Natal, isso porque a habilidade do Grinch era fazer a cara do personagem, esse rapaz não ficava quieto, e por vezes era engraçado, até passar dos limites e ser insuportável – era pentecostal e todos zoavam ele perguntando como seria se ele arranjasse uma namorada pentecostal, eu não sei se ele conseguiu, mas fica aqui o pensamento positivo para esse cara. As outras três garotas junto dele mal apareciam, exceto quando riam das gracinhas do Grinch, e não são dignas de nota na história, exceto quando uma delas no Prom parecia ter pedido a linha. Teve um cara que ficou apenas nas primeiras duas semanas e costumava conversar com o Thin, antes do Beard entrar, ele, no dia em que fui explicar um exercício, pediu que eu repetisse tudo em inglês, na hora e por muito tempo fiquei com raiva, mas o cara era gente boa e depois conversamos, tudo por intermédio do Narcos, que era amigo dele – esse cara vai receber um nome mais tarde. As aulas de matemática eram cheias de exercícios e atividades para casa, mas como eram fáceis eu descobri ser capaz de terminar tudo em classe e não precisar fazer nada no meu lar gringo, podendo então fazer vários nadas em casa. A sala era toda decorada e cheia de cor, um exagero estético se me permitem pontuar aqui, várias fórmulas e dicas estavam espalhadas pelo ambiente, e até com isso a turma demorava a aprender a desenhar gráficos de primeiro e segundo grau. Eu fui rei ali, 100% de aproveitamento, 104% na primeira metade do semestre, enfim, eu vi Frozen em uma das aulas, era isso ou um filme cristão que definitivamente não iria rolar. 



Falando em filme cristão eu tenho que retornar à primeira semana de aula, no meu segundo dia na escola, quarta-feira, quando as coisas tomaram rumo para uma atividade extracurricular.

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