Minha viagem aos Estados Unidos.
Esse aqui vai ser um compilado gigantesco, que pretendo dividir em algumas partes, sobre minha experiência de intercâmbio indo para a pequena cidade de Nashville, Arkansas. Foram cinco meses de vivência tendo como inglês a única forma de comunicação com as pessoas de lá, e evitando – ao máximo embora sem muita força de vontade – o uso do português. De maneira geral eu devo avisar que, em se tratando de uma viagem longa, mas exclusiva àquele local, eu vou falar em termos gerais e esperar que você entenda que o os EUA são um país imenso, e por isso possuem uma diversidade cultural gigantesca, não só pelo tamanho, como também pela quantidade de imigrantes vivendo por lá. É preciso lembrar, também, que certos eventos foram romantizados para transformar essa narrativa em algo mais aprazível à leitura, ou seja, por mais que seja tudo verdade, até certo ponto, eu fiz da minha memória uma história – grande Narciso eu sou.
Vamos ao que interessa.
A primeira coisa que notei, quando cheguei, foi o frio. Eu saí de quarenta, infernais, graus Celsius para o cortante valor de zero grau no aeroporto de Dallas, no Texas. Dizem por lá que tudo é maior no Texas, e aquele aeroporto era um bom exemplo de entrada. Os terminais eram quatro, distantes entre si por espaços vagos, acessíveis apenas por trens rodando pela estrutura. Logo que cheguei tive meus documentos verificados, digitais conferidas, foto tirada, e fui mandado para uma salinha especial, onde meus documentos seriam conferidos – afinal eu era um estudante de intercâmbio, disfarce perfeito para um terrorista na opinião dos estadunidenses. Naquela sala tive de pôr a prova o meu inglês pela primeira vez, com medo de ser mandado de volta por falar alguma besteira ou não ser compreendido e perder horas ali, perder o voo seguinte para a cidade de Texarkana, na fronteira entre Texas e Arkansas (pense no nome). Fui rapidamente despachado dali, desejei feliz ano-novo aos guardas do aeroporto como forma de me mostrar amigável (e descartara a hipótese de terrorismo), e corri por aquele emaranhado de lojas, terminais e escadas dando às estações dos trens dentro do aeroporto (como as pessoas chegavam lá? Eu não tenho ideia, talvez elas vivessem ali). Pedi ajuda, encontrei o meu local de embarque, sentei e esperei por mais de uma hora enquanto não chegava a hora do meu voo.
Ao esperar, todavia, tive um momento interessante. Ao meu redor brincava uma garotinha, não deveria ter mais de cinco anos. Ela rodava por toda a pequena área de embarque da zona de voos regionais, a avó zangava com ela vez ou outra, mas a menina não se importava com aquilo, e continuava brincando. Eu, depois de doze horas de voo comendo apenas no avião, estava faminto, e acho que deixei transparecer aquilo ao olhar vorazmente para o saco de gummy-bears da menina. Não me lembro do nome dela ou da avó, mas brinquei com ela um pouco enquanto comia das balas de chocolate – deliciosas por falar nisso – e conversei com a senhora, nem tão senhora por ser jovem, mas aqui nessa narrativa devemos considerar chama-la por um título respeitoso após esquecer-me do nome dela. Também estavam ao meu redor alguns mexicanos e outros americanos (os brancos, como eles deixaram sugerido nas conversas ao longo daqueles meses), mas com eles eu não socializei, ainda estava abalado pelas longas horas de voo (dormidas quase por inteiro, retirando-se o tempo para comer e morrer de medo da decolagem e aterrissagem, suaves, mas tensas).
Precisou-se de dois parágrafos, e nem sequer cheguei à minha cidade, então devemos esperar, partindo desse ponto, um sem-fim número de contos e causos de minha estadia. Seja como for, pousei em Texarkana, e minha comitiva era somada de minha host mom, uma brasileira que estava na casa onde ficaria e dali a uma semana partiria, e uma garota chinesa fazendo intercâmbio na mesma escola que eu. Honestamente? Eu fedia, estava cansado e de saco cheio, devo ter sorrido com a maior má vontade já registrada em solo americano, e peguei minha única mala (homens, tsk tsk) para ir para o carro, sonhando com um chuveiro quente e uma comida agradável. Enganei-me profundamente, primeiro porque a mesma senhora de antes, com a neta brincalhona, parou para conversar com a host mom, enquanto eu interrogava em português a brasileira, pegando levemente a situação local – baixo e discreto, não fale outra língua na frente de um americano, eles ficam ofendidos. À par de tudo fui para o Walmart comprar algumas coisas com minha comitiva, não sem antes pararmos (por um motivo desconhecido a mim depois de todos esses meses) em uma loja de motos e quadriciclos, onde fomos abordados por uma mulher histérica fumando nervosamente um cigarro – um clichê logo de início? Bem jogado EUA, bem jogado -. Ela pediu cinco dólares, perguntou se eu era mestiço por conta do cabelo – racismo nos primeiros quinze minutos em solo americano? Bem jogado EUA, bem jogado -, minha host mom respondeu que eu não era mestiço, mas brasileiro – repita o raciocínio anterior, cor da pele lá era identidade, mas mais importante era cor da pele E ser americano. Fomos para o Walmart, ganhei uns créditos de respeitabilidade com a chinesa depois de mostrar que conhecia um pouco da geografia local da China, andei por aqueles intermináveis corredores de produtos contendo de tudo um pouco e mais ainda, ouvi um falatório gigantesco em inglês, do qual entendia metade e me fazia entender menos ainda.
Fez-se uma epopeia, fui no banco da frente do carro porque já mandava ali, eu era o boss da parada. Uma hora de viagem de Texarkana até minha cidade, oh dear Nashville, home of the Scrappers. Chegamos a Nashville, deixamos a chinesa na casa dela, fomos para a nossa e tomei um banho. Como uma fênix eu ressuscitei nas águas do chuveiro, era um local apertado para um banho, uma banheira junto a um chuveiro baixo e de regulagem, por incrível que pareça, facilmente adequável. A brasileira da casa me avisou que teríamos uma festa de ano-novo (era dia 31 à tarde nesse momento, transcorreram apenas algumas horas desde minha chegada à terra do tio Sam) e que se eu quisesse poderia ir. Durante o jantar o filho do host dad, um maromba imenso e baixo, na faculdade e cujas visitas ocasionais me oprimiam pelo físico arduamente trabalhado, ficou por lá. Pedi aos host parentes dizendo que não estava cansado, e menti vigorosamente, pois me sentia atropelado por vinte mamutes albinos fora do peso. Preparei-me para a festa, fiquei novinho no grau, e fui parar em um local desconhecido, cheio de americanos falando ao meu redor, mal podendo me expressar e entender o que diziam, morto de sono e me perguntando o que diabos estava fazendo ali afinal. Deixamos o filho do host dad na casa dele pelo caminho, tinha um Mustang azul na garagem, era dele, fomos para a festa.

Boa! Estou curioso para ler os próximos capítulos =D
ResponderExcluirTodas as terças e quintas aqui no blog. Amanhã tem mais o/
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